Diários de Bordo
Experiências na Espanha
Autor : Demétrius Fabiano Fernandes
Introdução
Os textos que vocês lerão correspondem a textos que foram escritos na época em que eu residia na Espanha, que foi de 1999 a 2000, portanto não estranhem situações que já não mais existam ou que pareçam ultrapassadas para vocês, como por exemplo, o acesso a internet.
Perceberão vocês alguns erros de ortografia, acentuações “estranhas” entre outras coisas, isto ocorreu pelo fato de eu ter adquirido um notebook depois de estarmos já residindo algum tempo na Espanha. O notebook não tinha algumas acentuações que utilizamos e com o tempo acabamos por ficar desacostumados em escrever e até mesmo a pensar em português. Preferi deixar o texto como escrevi originalmente, pois assim vocês perceberão esta mudança.
Na época eu era casado com Lílian, porém hoje já não somos mais. Cada um segue sua vida, porém, ricos das experiências que adquirimos neste período.
Desde criança eu tinha o sonho em estudar no exterior, conhecer regiões do mundo que descobri ser apaixonado nos livros de história.
Minha infância e adolescência foram passadas na cidade de Joaçaba, na verdade residíamos um pouco retirados desta cidade, pois meus pais possuíam uma chácara.
Meus pais, pessoas de grande cultura, sempre estimularam a leitura e estudos, proporcionando condições para que eu viajasse, no meu imaginário, por terras distantes.
Lembro-me que quando chegava próximo de minha maioridade, procurei informações sobre a Legião Estrangeira, porém acabei adiando esta decisão.
Quando ocorreu a guerra do Golfo e a invasão do Kuwait pelo Iraque e aconteceram aqueles incêndios nos poços de petróleo e as empresas procuravam trabalhadores em todo o mundo, procurei me informar sobre a possibilidade de trabalhar nas equipes de incêndio, cheguei até a marcar entrevista, porém no dia acabei desistindo.
Anos depois, acabei entrando no Rotaract Club, que é um projeto do Rotary International e fiquei sabendo das bolsas educacionais que existiam.
Eu e minha ex-esposa concorremos a bolsa e ela acabou ganhando para nossa felicidade.
Durante quase um ano economizamos, vendemos algumas coisas e organizamos nossa estadia no exterior.
Muitas pessoas incentivaram, outras nem tanto, pois achavam uma loucura.
Mas já estava decidido!
Os relatos que vocês lerão em seguida, são diários que escrevi durante o período que lá estive que tinha como objetivo compartilhar com conhecidos e desconhecidos toda a experiência que obtive naquele período.
Até a época, poucas pessoas faziam isto, hoje com a internet tão acessível já é uma coisa comum.
Eu estava tão eufórico com a quantidade de experiências que estava recebendo que tinha a necessidade de dividir com outras pessoas, e como fazer isto?
Lembrei-me do seriado Jornada nas Estrelas, em que no início do programa o Capitão Kirk iniciava sua narrativa com a seguinte frase “Diário de bordo...”, decidi emprestar este termo e cunhar minhas narrativas. Afinal eu também me sentia como um explorador.
Havia também a preocupação em relação a minha empregabilidade, como eu faria para manter contato com as empresas estando quase dois anos longe do Brasil?
Consegui os sites e e-mails de diversas empresas no Brasil (principalmente através da revista Exame), montei uma lista de e-mails e comecei a enviar, destacando que caso eles não desejassem eu retiraria de minha listagem.
De uma lista de quase 120 empresas, apenas 03 pediram que eu retirasse seu e-mail.
Acho que foi uma experiência pioneira de marketing viral.
A experiência deu tão certo, que comecei a receber mensagens solicitando que eu incluísse seus e-mails na minha listagem. Dei entrevistas para alguns informativos de empresas, jornais e faculdades.
Quando retornei fui entrevistado por outros jornais, rádios e até televisão. O marketing realmente oferece resultados.
Lembro que na época, mesmo tendo diversos provedores gratuitos o acesso era muito complicado pois era “discado”, por este motivo redigia o texto no editor de texto e depois copiava para o corpo do e-mail.
Segue abaixo algumas informações que considero interessantes para quem irá se dedicar a leitura destes diários.
Porque a Espanha?
Na época era o país que mais crescia na Europa, posição que mantém até hoje. Um dos países que mais investiam no Brasil.
Possui algumas das universidades mais antigas e importantes.
Era um país que oferecia uma boa relação custo-benefício.
Documentação
Quem já morou no exterior, ou necessitou de visto para entrar em um país sabe a burocracia que existe.
Para conseguir o visto era necessário uma carta de aceitação da universidade da Espanha, esta não foi difícil, bendita internet.
Depois deveríamos legalizar nossa documentação e aí testamos o limite de nossa paciência, como o Brasil não fazia parte de um acordo educacional a legalização exige um certo trâmite que compreende: autenticação das assinaturas das pessoas que assinaram nosso diploma, depois como estudei em faculdade privada, devo conseguir a confirmação da assinatura, depois enviamos nosso documento para o Ministério das Relações Exteriores que reconhece a assinatura da universidade, depois ele volta e o consulado em Curitiba reconhece a assinatura do funcionário do Ministério, depois levamos para São Paulo e o consulado de lá reconhece a assinatura do cônsul honorário em Curitiba, neste ponto conseguimos o visto de estudante, mas quando chegarmos na Espanha devemos ir até o MEC deles e pegar um reconhecimento da assinatura do cônsul em São Paulo, para então oficializar nossa matrícula na Universidade espanhola. Cada etapa tem uma taxa. No retorno ao Brasil o procedimento é o mesmo, com 07 reconhecimentos de assinaturas. Meu diploma não tem mais espaço no verso, tanto que na embaixada do Brasil na Espanha foi necessário colar um anexo para fazer um carimbo.
Preparação para a viagem
Deixamos algumas pessoas para nos auxiliarem com algumas coisas aqui no Brasil, vender automóvel, cuidar do apartamento, cuidar de meu cachorro, etc.
Arrumar as malas foi outro capítulo a parte, como arrumar coisas para você usar durante tanto tempo?
Decidimos que roupas pesadas seriam adquiridas lá, pois seriam muito volumosas.
Eram malas que não terminavam mais, levamos até algumas coisas que eu achava que não encontraríamos lá, como feijão e erva-mate, 15 quilos de erva-mate!!!. Tive muito receio de confundirem esta erva com a outra “erva”, porém não aconteceu nada.
Nossa sorte em fazer esta viagem é que surgiu uma promoção da Ibéria, companhia de aviação espanhola, que você poderia trocar duas passagens de classe econômica por uma de 1ª classe e assim você ganharia mais uma poltrona de 1ª classe desde que ficasse na Espanha por um período de pelo menos 01 ano. Foi muito bom! Graças a isto foi possível levarmos 09 bagagens de mão dentro da cabina. E não pagamos excesso de bagagem.
Recursos financeiros
Conseguimos guardar uma boa quantidade de dinheiro além da bolsa dada pelo Rotary que viria pela Suiça e fui procurar uma instituição internacional para fazer o depósito e poder sacar em outro país, na época isto era bastante complicado para fazer esta movimentação. Fui até no Citibank, porém o atendimento foi tão ruim que desisti. Conheci um rotariano que na época era um dos diretores do HSBC e ele disse que estavam lançando um cartão que seria possível fazer saques em qualquer lugar do mundo tendo o dinheiro em conta aqui. Era o cartão Maestro. Abrimos a conta e isto facilitou e muito nossas vidas.
O problema foi que esqueci de liberar o cartão para uso internacional, levamos somente US$ 1.000,00 e nos primeiros dias foi muito difícil até que tivemos acesso ao dinheiro do Brasil. Pela primeira vez em minha vida fiz compras usando uma calculadora.
Chegada na Espanha
Como existia esta bolsa do Rotary, deveria existir uma pessoa que nos receberia e seria o responsável por nós em Madrid. Porém enviamos diversos faxes e e-mails e não obtivemos resposta. Decidimos arriscar assim mesmo.
Não tínhamos lugar para ficar, nenhum “plano b”, apenas o telefone de um rotariano.
Chegamos no aeroporto de Barajas, Madrid, creio que eram 05:00h da madrugada. Cansados, com sono e preocupados pois estávamos em um país estranho.
Ligamos diversas vezes para este rotariano e nada.
Procuramos na lista telefônica e com o nome dele descobrimos seu endereço residencial, pegamos um táxi e com muita cara de pau fomos de madrugada na casa desta pessoa.
O táxi era grande, porém tínhamos tantas bagagens que foi necessário amarrar parte dela no teto.
Quando chegamos tocamos a campainha e fomos recebidos por um senhor de pijamas e que demonstrava ter acabado de acordar.
Percebemos no seu semblante a “alegria” em nos receber, aí descobrimos o porquê dele não atender aos nossos faxes, ele estava em férias esquiando.
Pedimos ajuda e fomos a luta.
Em pouco tempo, conseguimos a simpatia de toda a família, porém estávamos ansiosos por encontrar um apartamento para nós.
Procuramos muito, mas os preços eram absurdos, pelo menos para os nossos padrões.
No final de uma semana este rotariano conseguiu com uma amiga sua a locação de um apartamento de 01 quarto. A família era dona de todo o prédio e morava no térreo.
Um apartamento, simples, até que “feinho” porém era o nosso canto. Não dependíamos mais de favores.
Agora começarei a postar os Diários de Bordo, com as informações que fomos colhendo no dia a dia, espero que gostem! Aproveitem!
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